Brasil, mostra tua cara!

Um texto de Bento Vilela

E pela sexta vez consecutiva a seleção brasileira de futebol foi eliminada de uma Copa do Mundo! A sexta vez que isso acontece desde o último título, em 2002, a sexta vez que ela é derrotada por uma equipe europeia, porém é a primeira vez em sua longa história que o Brasil perde de forma tão covarde e distante de sua vocação. É a pior campanha numa Copa do Mundo desde 1990, na Italia, e pelas ideias que passam na cabeça do treinador italiano, as coisas não devem mudar não.

Depois de um ciclo completamente conturbado, com dirigentes mais preocupados em se manterem no poder do que desenvolver o futebol local, era natural que o campo sofresse as consequências de tanto descaso. E após quatro treinadores fracassarem no comando do time, o então presidente da CBF, Ednaldo Silva, achou melhor ouvir os parasitas da imprensa esportiva do país, aqueles que renegam tudo que é nacional, e entregar o comando da seleção para um técnico estrangeiro, no caso o italiano Carlo Ancelotti.

Com a pompa de ter sido campeão por onde passou, o italiano chegou ao país com a missão de trazer o conhecimento, e a modernidade que o Brasil precisava para voltar a vencer. Tudo o que foi feito por aqui estava velho e ultrapassado, e no surrado roteiro colonialista que a imprensa tupiniquim abraçou, agora a Seleção teria um técnico de verdade, que mostraria aos brasileiros como se joga o futebol moderno.

Mas o que se viu não foi nada disso… após uma ano de trabalho, curto é verdade, mas o suficiente para se formar um time base, a seleção brasileira chegou a Copa do Mundo completamente perdida. Para não ser injusto com Ancelotti, as lesões de Estevão, Rodrigo, Militão, Raphinha e Wesley prejudicaram muito o trabalho do italiano. Nenhuma outra seleção do mundo perdeu tantos titulares, mas com aqueles que ficaram dava para apresentar um padrão de jogo condizente com a sua tradição.

E o Brasil fez justamente o contrário, uma campanha medíocre que culminou com a péssima parrtida contra Noruega, quando de forma covarde a equipe simplesmente abdicou de jogar, deixando a bola o tempo todo com a equipe adversária. Ao abrir mão de sua vocação ofensiva em nome de um esquema de jogo engessado, tipicamente italiano, e totalmente distante da ideia que fez a glória do futebol brasileiro, o time não simplesmente não rendeu e ainda deixou incrédulos os torcedores que não reconheciam aquele time de amarelo em campo.

Em nenhum momento dessa Copa a seleção brasileira apresentou um futebol de qualidade, o que vimos foi um time lento, sem criatividade, mais preocupado em se defender do que atacar, vivendo basicamente dos lampejos de Vini Jr., o único jogador que nos lembrou da nossa essência, provocadora, insinuante e letal. O atacante do Real Madri foi a única boa notícia da Copa, e esperamos que ele mantenha esse protagonismo nos próximos quatro anos.

Mas como diz o ditado, uma andorinha só não faz verão, outros jogadores precisavam dividir a responsabilidade de levar o Brasil mais adiante, e isso não aconteceu. Que o digam Bruno Guimarães, que desperdiçou o pênalti que abriria o placar contra Noruega, e Endrick, que após bela jogada de Vini Jr, conseguiu perder o gol mais feito da copa. Erros fatais num torneio eliminatório, e o oportunista Halland deixou isso bem claro ao marcar os dois gols que classificaram a Noruega.

Com a eliminação do Brasil, a geração de Neymar, Casemiro, Alisson e Marquinhos será uma página virada na Seleção. Uma geração que chegou a ganhar um título, a Copa América de 2019, mas que se despede de forma melancólica das copas que disputou. Não sei quantos jogadores dessa copa estarão no próximo ciclo, mas duvido muito que Carlo Ancelotti seja o técnico ideal para seleção brasileira.

Como escrevi outras vezes, o Brasil só voltará a ter sucesso quando olhar para si mesmo, quando voltar a respeitar sua essência, que está completamente ligada a história do seu povo, de sua cultura. Precisamos voltar a formar jogadores para os clubes brasileiros, jogadores de qualidade em todas as posições, e não ser aspenas o fornecedor de matéria-prima para o mercado externo, pois limita nossas potencialidades históricas ao padronizar algo que não representa a diversidade de nossa gente.

Enfim, sempre que ocorre uma eliminação surgem diversas teorias para explicar o fracasso, mas está evidente que a Seleção só voltará a ter relevãncia esportiva quando respeitar a sua própria história. O futebol brasileiro precisa mostrar a sua cara com todos os vincos, rugas e cicatrizes que fizeram da sua trajetória a mais empolgante do esporte. Por que apesar de toda criminosa campanha de vira-latismo feita pela grande mídia do país contra a seleção, o povo brasileiro, com o seu jeito, suas críticas, ironias e paixão, continuará sempre apoiando quem o representa.

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