Um texto de Bento Vilela

Para entrar no clima Copa do Mundo da América do Norte, a primeira sediada por três países, Canadá, Estados Unidos e México, resolvi fugir das discussões sobre a prováveis escalações do Brasil para falar do livro “As Copas que eu vi”, de Oldemário Touguinhó, um dos mais importantes e influentes jornalistas brasileiro de todos os tempos.
O livro é um relato de oito das dez copas que o jornalista, morto em 2003, aos 68 anos, cobriu para diversos órgãos de imprensa, especialmente o Jornal do Brasil. Uma experiência única e privilegiada de quem vivenciou a época de ouro do futebol brasileiro, e do próprio jornalismo do país. Uma época em que a construção daquilo que chamamos de identidade nacional passava pela seleção, e tinha na imprensa esportiva muitos dos seus intérpretes.
Escrito a quatro mãos por Oldemário e Marcus Veras, As Copas que eu vi, começa contando a trajetória do garoto nascido em Campos dos Goytacazes, e que ainda menino veio com a família para o Rio de Janeiro, onde seu pai, Mário, jogador de futebol, tentaria a sorte nos clubes da cidade. A carreira do seu Mário não vingou, culpa de um dos joelhos, mas a família permaneceu no Rio, onde Oldemário cresceu e teve a oportunidade de praticar diversos esportes.
“Desde pequeno eu estava acostumado ao futebol. Joguei dez anos no futebol de salão do Minerva, joguei basquete pelo Clube Municipal, futebol de campo no Astória, e no infantojuvenil do Botafogo, com o seu Brandão, lá em General Severiano. E por isso comprava todos os jornais de madrugada, para ler tudo o que se escrevia sobre o esporte. Sempre foi o meu único vício”
Do menino que viu a construção do Maracanã, o maior estádio do mundo, grandiloquência de um país que acreditava não ter limites para o seu projeto emancipatório, até o garoto que jogou um barril de chopp vazio no meio da quadra do Esporte Clube Minerva, no Catumbi, para comemorar o primeiro título da seleção brasileira, em 1958, Oldemário se tornaria não só um apaixonado por esporte, mas um profundo conhecedor do futebol brasileiro.
Aliás, para quem se acostumou com suas colunas no Jornal do Brasil, ou a forma eloquente com que participava dos inúmeros debates esportivos no rádio, ou nas mesas-redondas da televisão, jamais suspeitaria que Oldemário começou na profissão por acaso.
Em 1959, aos 24 anos, ele levava uma vida sossegada, como diria Rita, trabalhava no mercadinho de um amigo, tinha um bom salário, e uma lambreta que o levaria até o Chile para assistir à Copa de 1962. Passava os fins de semana entre o Maracanã, a praia no Calabouço e os bares da Lapa, e não se incomodava com essa rotina. Até que um dia o jornalista Antônio Andrade, da Tribuna da Imprensa, falou que Carlos Lemos, seu colega de redação, estava indo para o JB formar uma nova equipe de esportes, e como ele entendia tanto de esporte não podia perder essa oportunidade.
Mesmo sem saber se fazia a coisa certa, a paixão pelo esporte falou mais alto, e na semana seguinte Oldemário procurou Carlos Lemos na antiga sede do Jornal do Brasil, na Avenida Rio Branco, de onde só sairia quarenta anos depois. Se nos primeiros meses ele ainda duvidava se levava jeito para coisa, e por isso se dividia entre a redação do JB e o mercadinho do amigo, quando abraçou de vez a profissão construiu uma das carreiras mais sólidas do jornalismo esportivo brasileiro.
Uma carreira pautada pela ética, objetividade e na persistência de correr atrás da notícia, características de todo grande repórter. Vencedor de três Prêmios Esso, o maior prêmio do jornalismo brasileiro, Oldemário Touguinhó fez da credibilidade sua marca, por isso era respeitado tanto por suas fontes ilustres, quanto pelo grande público.
Tudas essas características podem ser lidas em As Copas que eu vi, onde ele nos lembra de uma época em que fatos, furos de reportagens, e declarações bombásticas eram dadas no calor do momento, sem o filtro dos intermináveis assessores de agora, que impedem qualquer tipo de contato mais direto entre os jornalistas, treinadores e jogadores.
Com um olhar aguçado sobre as causas do sucesso da seleção ao longo da história, o livro apresenta com a riqueza de detalhes de quem viveu intensamente seus bastidores, que o sucesso ou fracasso numa copa do mundo está sujeito a variáveis que vão muito além de ter ou não um bom time. É claro que um bom time ajuda, ainda mais se tiver um planejamento correto, e profissionais capacitados para aguentar a pressão de uma Copa do Mundo. Todavia, nem mesmo com tudo isso você tem a certeza que você vencerá no final.
Essa dicotomia atravessa a nossa história, sabemos a receita, porém muitas vezes fazemos questão de esquecê-la. Em 1958, 1962 e 1970, por exemplo, uma preparação extremamente coesa, aliada a um grupo de jogadores de raro talento, elevou o futebol brasileiro a categoria de arte. Ao mesmo tempo, esses mesmos craques que foram campeões antes ou depois, comandados por um técnico confuso, com uma preparação conturbada, e a falta de um padrão de jogo, acabou nos fracassos de 1966 e 1990.
E existe ainda outro caso bastante peculiar na trajetória da seleção, e que causou algumas de suas derrotas mais doídas mesmo quando era franca favorita, tinha uma excelente preparação, e possuía os melhores jogadores: o acaso. É claro que as derrotas da seleção possuem uma dramaticidade que extrapolam o pragmatismo das estatísticas, e as escolhas mal feitas por treinadores, na escalação ou nas escolhas que inibiram nossas potencialidades, fora os vacilos dos atacantes e a fragilidade defensiva ocasionaram as derrotas de 1974, 1978 e 1982.
Como a Copa do Mundo continua sendo realizada a cada quatro anos, em continentes com realidades completamente diferentes, o livro também acompanha o impacto do desenvolvimento tecnológico nas coberturas esportivas. Da dificuldade para encontrar um telex no Chile, em 1962, para ditar as matérias que seriam publicadas no dia seguinte, até as transmissões via satélite que possibilitaram as transmissões ao vivo das partidas, a tecnologia encurtou distância e aproximou o público da seleção.
A capa do livro, As Copas que eu vi, mostra algumas cenas eternizadas pelo futebol brasileiro, mas a imagem que imediatamente prende a atenção dos leitores é a de Oldemário Touguinhó sentado no gramado ao lado de Pelé. Aquela foi uma das inúmeras conversas que ele teve ao longo da vida com o Rei, inclusive ficou conhecido como o jornalista “amigo do Rei”, que gerou inúmeras anedotas, lendas urbanas, e alguns furos jornalísticos; como da vez em que Oldemário noticiou em primeira mão que o Rei se casaria, algo que o maior jogador de futebol de todos os tempos havia confidenciado somente para o amigo.
Da posição de quem muito viu, se frustrou e se emocionou profundamente com a seleção, Oldemário se dirige aos jogadores no final do livro para lembrar da responsabilidade de jogar pelo país, e toda paixão que a seleção desperta na população. Lembra de como a identidade nacional que falamos no início é algo intrínsicamente ligado ao futebol, por ser talvez a expressão máxima da nossa cultura.
Lembvra também do sentido de coletividade inerente ao jogo, pois a história nos mostra que o talento só consegue sobressair quando está inserido num plano de jogo que valoriza suas qualidades, seja você Pelé ou Garrincha. O futebol continua sendo um esporte coletivo, e assim como na vida, a ação de cada jogador influencia na tomada de decisão do outro. Somente quando estão todos focados em pegar a mesma onda, só para lembrar do esporte que tem dado mais títulos ao país nos últimos anos, o Brasil voltará a vencer.
Até hoje eu não vi nenhuma copa sozinho, pois acredito que ela seja um momento de confraternização, do sonho coletivo que serve de inspiração para um novo dia. Por isso, é extremamente simbólico que os últimos parágrafos do livro seja para lembrar dos companheiros que acompanharam Oldemário em todas essas coberturas. Uma constelação de craques que forjaram o delírio de nossa história. Portanto, salve, Oldemário Touguinhó! Armando Nogueira, Carlos Lemos, Sérgio Porto, Sandro Moreyra, João Máximo, Orlando Duarte, Alberto Helena, Avalone, Galvão Bueno, Luciano do Valle, Rui Osterman, Washington Rodrigues, João Saldanha e tantos, e tantos, e tantos…