Um texto de Bento Vilela

O começo do ano não foi nada fácil para o tenista carioca João Fonseca, após uma intensa pré-temporada em que buscou melhorar sua condição física, uma lesão nas costas acabou afastando-o dos primeiros torneios da temporada, e prejudicando sua preparação para o Austrália Open, onde caiu na primeira rodada. Aos poucos, João foi se recuperando, venceu o torneio de duplas do Rio Open, ao lado de Marcelo Melo, e fez duas excelentes campanhas nas quadras rápidas de Indian Wells e Miami.
Mesmo saindo derrotado dessas partidas, onde enfrentou os dois principais jogadores do mundo na atualidade, Jannik Sinner e Carlos Alcaraz, a impressão deixada por João Fonseca era que o seu jogo estava evoluindo, especialmente o saque e o voleio. Se faltou experiência para aproveitar as oportunidades que jogadores desse nível raramente oferecem, também ficou evidente o quanto ele se sente à vontade em grandes jogos.
O bom desempenho contra os dois melhores tenistas do mundo gerou grande expectativa para o seu desempenho na chamada “temporada do saibro”, a sequência de torneios de nível 500 e 1000 antes de Roland Garros, o Grand Slam desse piso. Mas ao contrário do que as partidas em quadra dura indicavam, essa “gira do saibro” acabou deixando mais dúvidas do que certezas.
Se tanto no ATP 1000 de Monte Carlo quanto no ATP 500 de Munique, João Fonseca conseguiu chegar as quartas-de finais, o fato de ter perdido nas duas oportunidades para tenistas do Top 10 do ranking, demonstrou o quanto seu jogo ainda precisava de consistência para enfrentar jogadores desse nível. Jogadores que possuem não apenas a solidez necessária para encarar grandes jogos, mas um estilo de jogo definido. E apesar do inegável talento, João ainda está a procura do seu.
E isso ficou mais evidente nas inesperadas eliminações dos torneios de Madri e Roma. Se contra o sérvio Medjedovic o clima de Copa Davis atrapalhou mais do que ajudou o brasileiro, contra o espanhol Rafael Jodar, um jovem da sua geração, que tem a mesma trajetória, as mesmas interrogações, e as mesmas batalhas a travar, João mostrou que a falta de consistência, ou de um plano de jogo mentalmente condicionado para sair da pressão adversária, o levou não apenas a derrota, mas um descontrole emocional, algo raro de se ver.
Após sentir um desconforto físico, João desistiu do ATP 500 de Hamburgo para focar na preparação para o torneio de Roland Garros. A irregularidade apresentada nos últimos jogos levou alguns analistas a questionarem se ele estaria preparado para enfrentar um torneio tão duro, e a ausência por contusão do grande favorito ao título, o espanhol Carlos Alcaraz, era um exemplo disso. Alguns ainda chegaram a levantar a hipótese de que o saibro não seria o piso ideal para o jogo do brasileiro.
Fazendo história no saibro francês
Todas essas dúvidas seguiram os passos João Fonseca até sua estreia contra o francês Luca Pavlovic. Apesar do apoio da torcida brasileira, o clima criado pela torcedores franceses não era nada amistoso, especialmente no primeiro set. Quem olha somente para o resultado final pode pensar que foi uma vitória tranquila, João bateu o francês por 3 sets a zero (7/6, 6/4,6/2), mas ela se mostrou bastante curiosa, e não apenas pelo clima da arquibancada.
As duas derrotas na estreia dos torneios de Madri e Roma deixaram sequelas, e fizeram o brasileiro jogar de forma mais conservadora no início do jogo, arriscando pouco, procurando pouco as linhas, por isso ele acabou indo para o tie-break. Mas foi só João imprimir um pouco mais de velocidade, manter a solidez defensiva nas trocas de bolas, que acabou levando o jogo com tranquilidade. Contudo, a despeito de espantar a pressão da estreia, as interrogações permaneciam.
Foi a segunda partida que mostrou como seria a participação de João Fonseca em Paris. Depois de ser dominado amplamente pelo sérvio Dino Prizmic nos dois primeiros sets, o carioca conseguiu manter a cabeça firme, começou a defender melhor, e principalmente a arriscar mais, ser mais ofensivo, e paulatinamente foi colocando o sérvio nas cordas. Depois de quase três horas e meia de uma partida que a torcida brasileira jogou o tempo todo ao seu lado, João fechou o jogo em 3/6, 4/6, 6/3, 6/1, 6/2.
Na terceira rodada João Fonseca enfrentaria um dos maiores desafios de sua curta carreira, nada mais nada menos do que o maior vencedor de Grand Slams da história, aquele que muitos consideram o maior jogador de tênis de todos os tempos, o sérvio Novak Djokovich. Aos 39 anos, e com mais de cem títulos no currículo, Djokovich aparecia como o grande favorito para vencer o torneio após a desistência de Alcaraz, e a precoce derrota de Sinner na segunda rodada.
Além de ser o único campeão de Grand Slam ainda no torneio, Djokovich tinha um motivo a mais para seguir em frente, o tão sonhado 25° título de Slam. Com esse título, o sérvio se isolaria como o maior vencedor de Grand Slam da história, tanto entre os homens como mulheres, já que a australiana Masrgareth Court também possui 24 Slams na carreira.
O início do jogo foi extremamente difícil para o brasileiro, Djokovich ditou o ritmo desde o início, alongando bolas que mantinham o brasileiro no fundo da quadra, variando o jogo com paralelas, deixadinhas e fechou os dois primeiros sets com um duplo 6/4. Esses primeiros sets mostraram ao brasileiro o tamanho da montanha que teria que subir se quisesse desafiar o eterno campeão, mas tirando a torcida brasileira poucas pessoas na Philippe Chartrier, a principal quadra do torneio, acreditavam que ele pudesse virar a partida
Como João falou para imprensa brasileira no pós-jogo, tudo que ele tentou fazer nos dois primeiros sets foi respondido com maestria pelo sérvio. Se batia forte, recebia uma paralela, se dava alta recebia curta, parecia que Djoko estava em todos os lugares da quadra, e ainda tinha o calor que fazia a bola sair mais rápida da raquete. Com todas essas adversidades a maneira que ele encontrou para permanecer na partida foi pensar ponto a ponto, e não no tanto que teria que reverter, senão teria sucumbido.
E o que se viu nos três sets seguintes não foi apenas uma virada histórica, mas a melhor e mais empolgante partida do torneio. Com uma Philippe Chartier dividida, que aplaudia, se levantava e gritava a cada ponto dos dois tenistas, o que se viu foi uma demonstração contínua de coragem, uma verdadeira aula de tênis, tanto do professor quanto do aluno que ainda procura o seu caminho. Se Djokovich dava deixadinhas, agora João chegava inteiro para rebatê-las, se era para dar paralela ele dava, se era para deixar curta, ele deixava, e a noite foi se fechando sobre os ombros do sérvio, que apenas assisitiu o brasileiro fechar o jogo com três aces seguidos.
Ao vencer novamente de virada uma partida de cinco sets (4/6,4/6, 3/6, 5/7, 5/7), Joâo Fonseca demonstrava para aqueles que duvidavam, que estava pronto para disputar partidas longas e intensas. Além disso, a parte mental se mantinha afinada com as situações que apareciam, e apesar das adversidades do início do jogo Fonseca teve a coragem necessária para buscar a vitória. Só para se ter uma ideia do tamanho da vitória sobre Djokovich, em toda sua carreira somente um tenista havia conseguido virar um jogo de cinco sets depois do sérvio estar vencendo por dois sets a zero, o austríaco Jurgen Melzer, em 2010, também em Roland Garros.
Depois da histórica vitória contra Novak Djokovich, o brasileiro enfrentatria outra pedreira, o norueguês Casper Ruud, número 16 do mundo, duas vezes finalista de Roland Garros e um especialista no saibro. E a partida se mostrou tão dura quanto contra Djokovich, a diferença é que João apresentou desde o início uma concentração e solidez defensivas que não dava brecha para que Ruud se impor.
Se no primeiro set os dois confirmaram seus serviços até o 12° game, quando João conseguiu a quebra e fechou o set em 7/5, o segundo foi bastante mais intenso ainda. Fonseca e Ruud se mantiveram extremamente agressivos, devolvendo todas as bolas,m salvaram os break-points que apareceram, e acabaram indo para o tie-break. Com extrema coragem e precisão, João conseguiu fazer 10/8, e fechar o set em 7/6 um set que durou 1h19 min. Se alguém pensava que o ritmo diminuiria se enganou redondamente, os dois continuaram na mesma tensão, confirmando seus serviços, fazendo jogadas cada vez mais difíceis e arriscadas, a diferença foi Ruud quebrar o serviço de João e fechar o set em 7/5.
Para não dar chances ao azar, o carioca começou o quarto set com tudo, quebrou o saque de Ruud, confirmou o seu serviço, e manteve o ritmo que Ruud não conseguiu mais acompanhar, fechando a partida em 7/5, 7/6, 5/7 e 6/2. Foi o único set em que o brasileiro conseguiu dominar seu adversário, e colocar em prática a sequência de forehands que os fãs adoram. Mais do que a vitória pessoal, a passagem para as quartas-de final de Roland Garros foi a primeira de um brasileiro desde 2004, quando Gustavo Kuerten fez sua última grande aparição no torneio.
Por falar em Gustavo Kuerten, o tri-campeão de Roland Garros (1997/200/2001), eterna inspiração para os tenistas do país, foi uma das presenças ilustres que acompanharam a vitória de João Fonseca na Philippe Chartier. Após agradecer a presença de Guga ainda na quadra, João usou as redes sociais para falar um pouco mais sobre a vitória contra Ruud: “Mais uma batalha contra um grande jogador como o Casper Ruud. Deixei tudo em quadra, vivi cada momento e coloquei o coração em cada ponto.
Não vou me alongar muito para falar da derrota de João Fonseca para Mensik nas quartas-de final, acho que ele não fez uma boa partida, e os games que perdeu quando sacava custaram os dois primeiros sets. , mas isso é típico da inconsistência de quem joga no limite. No terceiro set, por exemplo, João teve a chance de fechar, não conseguiu e o jogo acabou no tie-break. Mesmo salvando seis match points, talvez o seu melhor momento na partida, Mensik acabou derrotando-o em 3 sets a zero, com parciais de 6/4, 6/3, e 6/7.
Falando com a imprensa após o jogo, o brasileiro lamentou a derrota e avaliou sua participação no torneio: “Eu não sabia se conseguiria lidar com uma partida de cinco horas ou de quatro, e agora sei que posso confiar no meu corpo e estou mais confiante no meu jogo. Minha mentalidade está no caminho certo. Depois de duas partidas em que consegui virar o jogo após estar perdendo por dois sets a zero, encontrando novas maneiras de jogar e me adaptando. Hoje os méritos são todos do Mensik”.
Aos 19 anos, João Fonseca, aos 19 anos chegou às quartas-de-final em Roland Garros, algo raro de acontecer para o tênis brasileiro. Depois de um começo irregular, a temporada do saibro terminou de forma extremamente positiva e promissora. Que essa campanha se transforme na virada de chave que ele precisa para desenvolver toda sua potencialidade. De resto, parabéns, João, você foi gigante! Que venha a temporada na grama!