Neymar, e os astros globalizados

Um texto de Bento Vilela

A passagem de Neymar Jr pela Argentina para o jogo do Santos contra o San Lorenzo, o eterno time do Papa Francisco, pela libertadores da América, causou verdadeira comoção entre os torcedores locais, e intenso debate na mídia esportiva dos dois países. Para os “Hermanos”, um assombro, não imaginavam que o craque brasileiro tivesse tantos fãs no país; por aqui as discussões caíram na vala comum do extremismo. Para os devotos do “menino Ney” foi a prova cabal de sua grandeza. E para aqueles que o odeiam com todas as forças, aquele alvoroço não passou de um sintoma da patologia contemporânea de culto as celebridades

Gostando ou não, a verdade é que desde que botou os pés na Argentina, Neymar Jr. não teve apenas a mídia portenha atrás de si, mas também uma legião de fãs que se amontoou na porta do hotel em busca de um autógrafo, uma selfie, ou um simples aceno do ídolo. A idolatria pelo brasileiro foi tão inusitada, que até mesmo os jogadores adversários tentaram levar para casa alguma parte do uniforme do craque como lembrança. Isso acontece por dois motivos: o primeiro é que Neymar Jr. é um dos principais ídolos do esporte na última década, e a segunda é que ele sempre soube utilizar as mídias sociais para projetar sua imagem.

Uma projeção cada vez mais direta e sem intermediários, ou seja, as mídias tradicionais. Hoje em dia é praticamente impossível um jogador do tamanho de Neymar ou Messi, para ficarmos somente no futebol, concederem entrevistas para canais ou espaços que não estejam diretamente ligados as suas redes sociais, ou aos clubes que jogam. Além de serem verdadeiras empresas, movimentando milhões com patrocínios e contratos que afetam as vidas de todos a sua volta, esses ídolos globais se transformaram em produtores do próprio conteúdo. Se por um lado isso os colocou mais próximo de seus admiradores, por outro os afastou de qualquer tipo de desconforto diante das críticas que invariavelmente acompanham quem é cotidianamente analisado o por sua performance esportiva.

Com milhões de seguidores em suas contas, os jogadores agora se sentem mais confortáveis em desprezar a grande mídia, e se não fossem aquelas que ainda possuem os direitos de transmissão de alguns campeonatos, provavelmente nem entrevistas dariam após as partidas. De Pelé a Maradona, passando por Garrincha, Cruiff, Zico, Ronaldo, Zidane etc. os ídolos de passado que alcançaram fama planetária causavam a mesma comoção em seus fãs.

Contudo, em nenhum momento da história eles foram tão vistos- em campo ou fora dele- julgados e venerados como os jogadores atuais. Nunca suas atuações foram tão destacadas e minunciosamente detalhadas por aqueles que os idolatram, criticam, ou apenas ganham dinheiro as suas custas em casas de apostas.

Reconhecidos cada vez mais como pop-stars, os atletas contemporâneos, e não apenas os jogadores de futebol ou basquete, só para ficar nos que mais faturam, fazem do estrelismo um adorno que os acompanha. Ao viverem nessa bolha de bajulação, muitos acabam perdendo a noção dos próprios limites e tamanho que possuem, alguns realmente se acham maiores do que o talento que possuem, e quando a crítica vem pesada, normalmente reagem de maneira intempestiva.

Ninguém sabe onde esse circo midiático vai parar, mas certamente é um caminho sem volta. E anaslisando os inúmeros casos de atletas ue tiveram a saúde mental afetada nos últimos anos pela exposição excessiva de compromissos publicitários, competições cada vez mais disputadas e julgamentos diários das redes sociais, é possível imaginar que no futuro vejamos atletas com carreiras cada vez mais curtas e descartáveis.

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