O cinema de Fernando Solanas.

Apesar da produção cinematográfica latino-americana estar cada vez mais presente em mostras e festivais pelo Brasil, a sua distribuição ainda é muito incipiente nos cinemas e streamings, o que acaba distanciando o público de uma produção extremamente variada e complexa. Por conta disso, a publicação do livro: “Fernando Pino Solanas, cinema, política e libertação nacional”, pela editora Insular, é uma grande oportunidade para quem deseja conhecer a vida e obra de um dos principais cineastas do cinema mundial.

Produzido pelo Grupo de Pesquisa e Extensão Cinema e Memória na América Latina da Universidade Federal Fluminense (UFF), o livro, organizado pelo filósofo, escritor e cineasta André Queiroz, se debruça sobre a vida do diretor e ativista político argentino Fernando Solanas, um artista que fez da experimentação narrativa o moto contínuo de uma obra revolucionária. Além de distender as marcações da linguagem cinematográfica, Solanas foi o cineasta latino-americano que tematizou o saqueamento imperialista em nossa região com maior agudez.

Transitando tanto pela ficção como pelo cinema documental, Solanas sempre apontou sua lente para as mazelas da América Latina, particularmente a Argentina. As ações do imperialismo na manutenção do subdesenvolvimento local, através da espoliação de suas riquezas e o financiamento de governos corruptos e totalitários ao longo da história, estão presentes em sua obra. Uma obra que além da contundência discursiva poucas vezes vista, produziu imagens que ficam guardadas na retina dos espectadores.

Desde o seu primeiro longa-metragem, La Hora de los Hornos (1968), obra-prima do cinema documental, feita em parceria com Octavio Getino, até Tres La Deriva (2021), seu último filme, Solanas foi o militante de um cinema que tentou subverter a passividade do espectador para o desenvolvimento de uma análise crítica da realidade. Não por acaso, foi um dos idealizadores do “Terceiro Cinema”, o movimento que ao contrário do primeiro cinema, o de Hollywood, e o segundo, dos autores europeus, procurava despertar da consciência política do espectador e contribuir com o processo de libertação do terceiro mundo.

É claro que esse posicionamento não passaria despercebido pelo aparelho de repressão do Estado, e após uma tentativa frustrada de sequestrá-lo, Solanas é obrigado a se exilar na Europa em 1976. Assim como tantos exilados latino-americanos, ele tentará enfrentar o desalento desse período com o que sabia fazer melhor, filmando. Entretanto, para um autor que fazia do seu país o roteiro de suas histórias, estar longe da realidade que o inspirava praticamente inviabilizava suas ações.

Contudo, nem mesmo a distância conseguiu afastá-lo das discussões políticas do país, passando a apoiar a luta das “Mães da Praça de Maio” e organizações de direitos humanos que denunciavam os crimes cometidos pela ditadura civil-militar no país. Tirando o documentário feito para televisão francesa, “O olhar dos outros”, que aborda a vida social de 24 pessoas com deficiência na França, ele só voltará a fazer filmes quando retornar a Argentina, o que acabou acontecendo no final de 1983, com a queda da ditadura civil-militar que assassinou mais de 30.000 pessoas em sete anos.

Um retorno para contar os percalços da vida do lado de lá do Atlântico, a vida daqueles que foram obrigados a partir sem prazo de volta, que abandonaram família, amigos, passado e a ideia de um futuro que jamais chegaria. Para ilustrar essa desterritorialização, Solanas utilizará o que chama de Tanguedia, a junção do tango, comédia e tragédia para filmar: Tangos – o exílio de Gardel (1985), vencedor do Grande Prêmio Especial do Juri do Festival de Veneza daquele ano.

Prosseguindo com a linha crítica que sempre o conduziu, Sur (1988), o segundo filme pós-exílio será o oposto do primeiro, pelo menos aparentemente, pois é uma deferência a todos os militantes que permaneceram no país, e resistiram ao terrorismo de Estado, dentro e fora das prisões. Ao retratar a história de Floreal, um preso político que tenta voltar para casa após passar cinco anos na cadeia, Solanas nos lembra não apenas de quem sobreviveu aos horrores do regime, mas daqueles cuja memória mantém essa ferida aberta no centro da sociedade argentina.

Um filme guiado pelo tango de Piazzola e uma vontade de atravessar a noite que insistia em perdurar, ou como disse o próprio Solanas em seu lançamento: “Sur nos conta uma história de amor. É o amor de um casal e a história de amor por um país. É a história de um regresso. Sur nos fala do reencontro e da amizade. É o triunfo da vida sobre a morte, do amor sobre o rancor, da liberdade sobre a opressão, do desejo sobre o temor. Também quero dizer que Sur é uma homenagem a todos que, como meu personagem tartamudo, souberam dizer não”.

 A luta contra o neoliberalismo dentro e fora das telas

A partir dos anos noventa Solanas se consolidará não apenas como o mais importante cineasta argentino, mas também um ativista político extremamente influente, mordaz e combativo. Isso lhe trouxe dissabores, o colocou no centro de polêmicas, e resultou no atentado de 1992, quando levou três tiros nas pernas enquanto caminhava por uma rua de Buenos Aires. A tentativa de assassinato aconteceu dois dias após Solanas criticar duramente o governo neoliberal e entreguista de Carlos Menem, aquele que desejava ter relações carnais com os americanos.

Os autores dos disparos nunca foram encontrados, sobre os mandantes, uma suspeita. No ano seguinte, Solanas levará o seu ativismo político para o parlamento argentino, ao ser eleito deputado federal por Buenos Aires, cargo voltaria a ocupar em 2009. Além de se candidatar duas vezes a presidência (2007 e 2012), Solanas seria eleito para o senado em 2013, e em toda sua trajetória parlamentar lutará ainda mais pela defesa dos interesses nacionais, frente a voracidade imperialista e seus vassalos locais.

Defesa que reconhecemos em filmes como A Viagem (1992), alegoria sobre o destino das nações latino-americanas condenadas a ficar sobre o guarda-chuva do consenso de Washington, e A Nuvem (1998), onde numa Argentina afundada na recessão econômica, um grupo de teatro amador tenta manter a sua sede frente a especulação imobiliária e a corrupção do poder público.

A partir de Memória do Saqueio (2004), documentário que desvela como o projeto ultraliberal implantado por Menem na década de 90 levou a Argentina a ruína econômica, e fomentou uma catástrofe social que tomou as ruas do país em 2001. Solanas passará as últimas duas décadas de sua vida produzindo documentários sobre as grandes contradições nacionais. É assim com Argentina latente (2007), que aborda como as riquezas do país foram privatizadas a preço de banana por sucessivos governos corruptos, e como a união dos trabalhadores deu uma sobrevida para empresas falidas de áreas estratégicas.

O mesmo poderia se dizer de A Próxima estação (2008), que demonstra como o setor ferroviário argentino foi criminosamente desmontado durante o governo Menem, acabando com diversas cidades que viviam economicamente dos trens, ou Tierra Sublevada-oro impuro (2011), onde Solanas denuncia como as empresas estrangeiras estavam destruindo o meio ambiente e ganhando rios de dinheiro as custas da saúde da população.

Toda essa história de resistência, valorização e ampliação da cultura argentina e latino-americana é abordada nas 300 páginas do livro, que conta com a reprodução de entrevistas dadas por Fernando “Pino” Solanas ao longo da carreira, e até então inéditas no Brasil. O livro conta também com artigos feitos por autores como Mariano Mestman e Mario Firmenich, que abordam a militância do Terceiro Cinema e da participação do Grupo Liberación para o processo revolucionário.

 Em sua extensa filmografia, praticamente todos os filmes que realizou receberam algum prêmio em festivais ao redor do mundo. Como a Palma de Ouro de melhor diretor em Cannes pelo filme Sur (1988), o de Melhor filme e direção do Festival de Cinema de Havana, que aconteceu em várias oportunidades, o Urso de Ouro, em Berlim, por Memória do Saqueio (2004) ou os diversos prêmios que recebeu da Associação de Críticos do Cinema da Argentina, entre tantos outros. É o reconhecimento do trabalho de um autor que durante seis décadas construiu uma filmografia extremamente coerente e verdadeira.

 É por isso que “Fernando Pino Solanas, cinema, política e libertação nacional” é um livro fundamental para todos os devotos da sétima arte. Uma obra referencial, não apenas no Brasil como na própria Argentina, pois analisa os caminhos trilhados por um artista, e ativista político, fundamental para o desenvolvimento do cinema. Fernando Ezequiel Solanas, seu nome de batismo, faleceu em novembro de 2020, aos 84 anos, vítima da Covid-19, em Paris, enquanto exercia o cargo de Delegado Permanente da Argentina na Unesco, mas sua obra permanecerá para sempre como uma das mais singulares, poéticas e viscerais do cinema mundial.

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