A convocação da seleção

Texto de Bento Vilela

Transformada num grande evento midiático, com patrocinadores, influencers, torcida e até jornalistas, a convocação da seleção brasileira para Copa do Mundo de 2026, realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, ficou marcada pelo retorno de Neymar Jr a seleção pentacampeã mundial. Se a escolha não foi unânime, especialmente entre os jornalistas esportivos, a reação do público em geral mostrou que o craque do Santos continua prestigiado pela torcida.

Depois de uma preparação atribulada, onde tivemos três técnicos e o então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, afastado do cargo pela justiça, a seleção chega às vésperas da Copa do Mundo com novas direções dentro e fora das quatro linhas. A ideia do antigo presidente, que foi abraçada pela nova gestão, e aplaudida desde o primeiro momento pela imprensa esportiva parasitária, de ter um técnico estrangeiro dirigindo a equipe se concretizou. Pela primeira vez em sua história um técnico estrangeiro estará sentado no banco da seleção., e apesar de ainda não ter dito ao que veio, Carlos Ancelotti já começou a fazer as publicidades inerentes ao cargo.

Particularmente, sempre fui contra a contratação de um técnico de fora para comandar a seleção, pois acredito que o país só voltará a vencer uma copa do mundo quando se reencontrar com sua história. Num esporte cada vez mais padronizado e asséptico, as características culturais de jogadores e países são o que ainda fazem do jogo algo atraente e diferenciado para as massas. A partir das características do seu povo, o o Brasil contribuiu como nenhuma outra nação para a transformação do futebol no esporte mais popular do mundo.

Mas essa discussão passa longe da grande mídia esportiva brasileira, que além de debater os problemas estruturais que nos atingem, como calendário, gramado e violência nos estádios, devertia estar falando também como o desrespeito as tradições tem prejudicado o desenvolvimento do nosso jogo. Ao invés de se debater como as variações que nos constituem podem contribuir para novas narrativas em campo, o que vemos muitas vezes são discursos falaciosos sobre a história do futebol brasileiro, sempre desprezada pelos parasitas, e uma grotesca subserviência aos modelinhos pré-moldados que vem de fora.

Essa subserviência não é exclusiva do futebol, pelo contrário, mas se em outros setores da sociedade brasileira o antropofagismo continua na ordem do dia, no futebol, que é o melhor exemplo do projeto civilizatório brasileiro, é uma aberração ver como boa parte da mídia esportiva brasileira exerce com desenvoltura o papel de capitães do mato da retórica colonialista.

Voltando aos selecionados, o retorno de Neymar deixa explicito dois grandes problemas do futebol brasileiro atual que afetam diretamente a seleção brasileira. O primeiro é como o neoliberalismo conseguiu reproduzir sua lógica excludente no futebol, esvaziando nossos campeonatos e transformando nossos clubes em meros produtores de matéria-prima. O segundo, que está diretamente atrelada ao primeiro, é que essa lógica passou a ditar as regras da próprias bases.

Asssim como acontece em outros ramos da economia nacional, os clubes brasileiros deixaram de lado a tradição de formar jogadores dos mais variados estilos e posições para suas equipes principais, para produzir atletas que atendam especificamente ao mercado externo, com características físicas e técnicas determinadas.

 É por isso que ao analisarmos a lista final dos convocados vemos tantos defensores e atacantes, e somente cinco meio-campistas. Apesar de não termos uma geração tão talentosa como de outras épocas, a carência de laterais e meias é uma realidade, não deixa de ser curioso que um treinador italiano tenha feito uma lista tão desequilibrada. Até porque alguns jogadores que ficaram de fora poderiam estar na lista final, como é o caso do Gerson, Andrey e Matheus Pereira, por exemplo.

Além de contribuirem para a mudança de esquema tático ao longo da copa, afinal, serão 8 jogos em 35 dias – isso para quem chegar à final, é claro – as partidas sendo disputadas em pleno verão no hemisfério norte, e se formos levar como parâmetro as Copas do México de 1986, e dos Estados Unidos, em 1994, o calor tende a ser escaldante. Ainda mais nas partidas que serão jogadas ao meio-dia!

 O grande número de atacantes convocados me leva a pensar que Ancelotti assumiu de vez o esquema 4-2-4, e quiçá poderá variar para o 4-3-3 durante a competição. Esse esquema não é uma novidade em nossa história, até Zagallo assumir a ponta-esquerda, em 1958, era assim que jogávamos, e dois dos principais times da história do futebol mundial continuaram com esse esquema nos anos seguintes: o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha. Sem cair na covardia de comparar jogadores, a Copa da América do Norte nos mostrará até que ponto esse ainda esquema consegue ser competitivo, ou se teremos mais frustração.

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