A natureza do escorpião e a finitude rubro-negra.

Ao acordar com a notícia da demissão de Felipe Luís em pleno natal rubro-negro, 03 de março, imediatamente me veio à mente a fábula do sapo e o escorpião. Para quem não lembra dessa história, é aquela na qual o escorpião pede ajuda ao sapo para atravessar um rio. De início, o sapo recusa, com medo de ser picado pelo escorpião, mas depois de jurar de patas juntas que não faria nada que causasse a morte dos dois, o sapo acabou aceitando. A travessia até que seguia tranquila, mas no meio do caminho o escorpião não se aguentou e soltou o ferrão no sapo. E a história termina com o escorpião culpando a própria “natureza” pelo afogamento dos dois.

Assim como o escorpião não conseguiu manter sua promessa, parece que o Clube de Regatas do Flamengo não consegue deixar de sabotar qualquer projeto técnico de longo prazo, mesmo quando esse projeto é extremamente vitorioso.

Apesar de ter vencido quase todos os títulos que disputou em 2025, a direção do clube não teve nenhum pudor em demitir Felipe Luis, um dos maiores treinadores de sua história, e que também foi um grande ídolo dentro das quatro linhas. E isso aconteceu, simplesmente, porque o time começou a temporada perdendo duas taças inexpresivas.

Dentre os principais motivos para o começo de temporada ruim estão a mudança do calendário devido à Copa do Mundo no meio do ano, e a intromissão do presidente do clube, Luis Antônio Baptista, o Bap, que obrigou o time a interromper a pré-temporada para não perder uma partida do Vasco da Gama no Campeonato Carioca.

Mesmo assim, tirando os histéricos youtubers que mais parecem torcedores de times pequenos do que do Flamengo, poucos imaginavam que Felipe Luis perderia o cargo após a vitória de 8×0 sobre o Madureira. Mas o escorpião…

É claro que no cotidiano do futebol brasileiro essa realidade não tem fronteiras, mas demitir um técnico extremamente vitorioso e icdentificado com o cluber, reforça a tese de que o atual mandatário do clube nunca engoliu o fato de que o seu vitorioso treinador fosse uma herança da antiga gestão. Mas como Felipe Luís tinha o estranho hábito de acumular títulos, o jeito foi deixar o barco correr e esperar a primeira instabilidade para demiti-lo.

Para além do bem e do mal dessa ação, é interessante perceber como o sentido de finitude atravessa a história do Clube de Regatas do Flamengo. No texto que escrevi sobre os “anuários rubro-negros”, falei que o Flamengo é um dos poucos clubes que se mantém fiel a sua história, que no caso rubro-negro é feita de vitórias, vitórias e vitórias.

A torcedor rubro-negro jamais se conforma com a derrota, ou com um estilo de jogo que contrarie a narrativa que o constiuiu como o clube mais popular do país. É por isso que apesar de venerar seus ídolos como nenhum outro clube, ele mantém uma relação ambígua com seus treinadores.

Raros são aqueles que entendem a sua natureza, e é por isso que tirando Jorge Jesus, um flamenguista de alma, nenhum treinador criado fora da Gávea conseguiu juntar sucesso em campo com a empatia das arquibancadas.

Felipe Luis tinha tudo isso, empatia, inteligência, carisma e a alma rubro-negra, por isso a sua saída deixou um enorme vazio no coração daqueles que entendem o Flamengo como algo que vai além do futebol. Afinal, ele sempre será um dos nossos.

Com a saíde de Felipe Luís, o Flamengo jogou nos ombros do estranho no ninho Leonardo Jardim a tarefa de dar continuidade a história de um clube que não se sujeita aos caprichos de um treinador, seja ele quem for. Os primeiros resultados do português foram auspiciosos, mas ainda terá que conquistar muita coisa para se manter num clube que tem como principal objetivo manter viva a chama que por vezes o consome.

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