Um texto de Bento Vilela

Maior promessa do tênis brasileiro desde Gustavo Kuerten, o carioca João Fonseca, 19 anos, superou todas as expectativas em seu primeiro ano no circuito da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP). Se no início de 2025 ele sequer figurava entre os 100 melhores do ranking mundial, João fechou o ano na 24ª posição, a quarta melhor colocação de um tenista brasileiro em todos os tempos, e ainda venceu dois torneios (o ATP 250 de Buenos Aires e o ATP 500 da Basileia), algo que não acontecia há 12 anos.
De um começo avassalador no primeiro Grand Slam do ano, o Austrália Open, onde bateu o top 9 do ranking, Andrey Rublev, até o título na Basiléia, João Fonseca mostrou talento, determinação e a oscilação típica de um estreante.
Isso causou certa ansiedade na torcida brasileira, que o abraçou por onde passou, e a sanha dos oportunistas de plantão, sempre ávidos por insultar qualquer pessoa que afronte sua mediocridade.
O que muita gente parece não entender é a natureza do esporte individual, onde as derrotas são tão rotineiras quanto as vitórias, especialmente para um jogador em início de carreira.
Se o basquete é o esporte criado por deus e administrado pelo diabo, como dizia o jornalista Armando Nogueira, o tênis talvez seja aquele que melhor retrate a imprevisibilidade cotidiana.
Todas as variações que ocorrem num jogo de tênis, com suas chances perdidas, presentes inesperados, jogadas mal pensadas, bem pensadas, mal concluídas, que levantam os torcedores de suas cadeiras, ou ainda a bola que toca na linha, na rede, e muda os rumos de um ponto, um game, e até mesmo um campeonato, são metáforas do acaso que nos rodeia.
Por ser um esporte quase sempre individual – existem as partidas em duplas- o tenista sempre é exigido ao máximo, tanto física quanto mentalmente, e atravessa uma verdadeira montanha russa de emoções toda vez que entra na quadra.
Numa mesma partida ele terá momentos de domínio, frustração, ansiedade, alegria, irritação e alívio. Jamais pode se desligar do jogo, mas quando isso acontece precisa voltar rápido, pensar na próxima jogada, tentar manter a serenidade sem a ajuda dos ansiolíticos que contornam a plateia, e mesmo assim é capaz de sair da quadra derrotado.
Assim como Sísifo, ou quem ainda lê essas linhas, o tenista mal tem tempo de pensar na derrota que o abateu, as pedras continuam rolando, e a única coisa a fazer é tentar chegar ao topo novamente.
João Fonseca sabe perfeitamente a montanha que precisa subir, e esse ano será fundamental para entendermos a velocidade dessa subida. Além dos fantasmas que cada um carrega, o tênis te coloca diante de situações e adversários que muitas vezes estão além das suas forças.
Isso não quer dizer que ele não não tenha condições de escalar essa montanha, pelo contrário, João tem o talento necessário para isso, uma direita poderosa, uma esquerda que evoluiu muiito ao longo do ano, e um poder de concentração raro para garotos da sua idade.
É claro que ainda precisa desenvolver o condicionamento físico, ter mais consistência durante os jogos, e se movimentar melhor para aguentar a pancadaria de um circuito que não para de jogar pedras sobre os seus ombros.
Nada disso se resolve da noite para o dia, e as derrotas nesse início de temporada são uma prova disso, porém tempo é algo que João tem de sobra.
Apesar do tênis continuar sendo um esporte elitista em nosso país, praticado em clubes e academias que a maioria da população desconhece, a natureza do jogo faz com que ele seja extremamente apaixonante, e facilmente compreendido.
E quando aparece uma promessa de ídolo, como é o caso de João Fonseca, essa conexão é instantânea. Que a vitória no torneio de duplas do Rio Open 2026, ao lado do experiente Marcelo Melo, seja o prenúncio de uma temporada cheia de inspiração.
Excelente análise. Bora, João!!