Quando o presidente do Clube de Regatas do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, demitiu o multicampeão Luis Felipe com a justificativa de que o time pegara um trem errado, e que era melhor mudar a rota para que o ano não terminasse antes de começar, ninguém imaginaria que o seu substituto destruísse tudo que fora construído na vitoriosa campanha do antecessor, e ainda fizesse o clube passar por mais uma vergonha na libertadores.
Apesar de ter feito uma excelente primeira fase, algo que não acontecia há alguns anos, a Libertadores da América é um torneio extremamente difícil e imprevisível, onde além da qualidade dos adversários, a voracidade com que muitos países encaram a competição, e a própria geografia do continente transformam algumas partidas em verdadeiras batalhas. Uma competição que nem sempre o melhor time, ou elenco, consegue ser campeão, pois além da técnica exige uma dose extra de comprometimento.
O próprio Flamengo conhece essa receita, pois no ano passado acabou sendo campeão com uma campanha extremamente irregula. Fez alguns bons jogos, outros nem tanto, jogou na altitude, com um jogador a menos, um jogador a mais, e também passou pela loteria dos pênaltis. Não por acaso, o goleiro Rossi foi a figura mais importante daquela trajetória, e suas atuações foram decisivas para levar o Flamengo à final.
Mas este ano a coisa parecia ter mudado de figura, o clube fez uma fase de grupos irretocável, com quase 100 % de aproveitamento (5 vitórias e 1 empate), o que lhe deu a oportunidade de decidir todos os jogos das fases eliminatórias em casa. O que foi muito bem utilizado nas oitavas de final, quando jogou duas partidas duríssimas contra a excelente equipe do Cruzeiro, passando de fase após um empate em BH e uma vitória no Rio.
Mas a partir das quartas de final o time parece ter perdido o rumo, evidenciando o que muitos já suspeitavam, que o conservador esquema de jogo do treinador Leonardo Jardim não combinava com o elenco, e a própria história do clube. Apesar do excelente resultado na altitude de Quito, onde voltou pra casa com uma vitória de 2×0 sobre o Independiente del Vale, no jogo de volta no Maracanã quase tudo deuerrado, e se não fosse uma falha da defesa equatoriana, o Flamengo poderia ter sido eliminado já nas quartas.
Mas a vergonha ficou mesmo para as semifinais contra o Estudiantes, quando o Flamengo mostrou uma inoperância ofensiva tão desesperadora, uma falta de criatividade tão irritante, que o time conseguiu passar o jogo inteiro de Buenos Aires, e metade da partida de volta no Rio de Janeiro sem dar um chute ao gol!?!? Um plano de jogo anacrônico, que não lembra em nada a tradição de um clube que mesmo nos piores momentos de sua história mantinha uma postura vocacionada para o gol.
Para piorar, no jogo do Rio o Estudiantes ficou praticamante o segundo tempo inteiro com um jogador a menos, e mesmo assim o Flamengo não conseguiu encontrar alternativas para furar o sistema defensivo do adversário. A lentidão e falta de inspiração dentro das quatro linhas pareciam se refletir no banco de reservas, onde a morosidade do técnico português o fez empurrar qualquer tentativa de mudança do esquema tático para o final do jogo.
Para coroar a trágica noite da nação rubro-negra, depois de 180 minuitos de péssimo futebol, os jogadores ainda brindaram a torcida com três ridículas cobranças de pênalti. Além da eliminação, essa falta de pontaria só serviu para redimir o escorraçado Muslera, considerado o pior goleiro da última Copa do Mundo da Fifa, no herói da classificação.
Palmeiras também pode ser tetra
E como todo castigo é pouco para quem abandona a propria vocação, o Flamengo ainda pode assistir o Palmeiras, seu grande rival nos últimos anos, igualando o mesmo número de títulos na libertadores. Ao contrário do que aconteceu nos últimos anos, a trajetória do Palmeiras para o tetra campeonato foi de altos e baixos, assim como o Estudiantes o time se classificou nos pênaltis para final, porém chega com o astral renovado e a tranquilidade de não ter o arquirival do outro lado.
Além da libertadores, o Palmeiras continua lutando ponto a ponto contra o Flamengo pelo título brasileiro, única competição que sobrou para o rubro-negro, e está nas semifinais da Copa do Brasil. Se o time de Abel Fereira conseguir a inédita tríplice coroa (Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil), o treinador português colocará definitivamente o seu nome na história do Palmeiras, e do próprio futebol brasileiro.
Resta saber o que os trapalhões da Gávea farão na reta final do campeonato, juntarão os cacos da vergonhosa paricipação na libertadores, ou assistirão passivamente o trem descarrilhar antes de chegar na estação. A ideia de pedir o anulamento da partida, e eliminação do Estudiantes da competição por uma possível escalação irregular do zagueiro Marcos Rojo, que daria a vaga na final para o Flamengo mesmo depois da ridícula semifinal que disputou, não parece um bom presságio.