O apocalipse das bets

Desde que o presidente Lula assinou a medida provisória proibindo as bets no Brasil, uma avalanche de críticas e teorias do fim do mundo tem dominado os discursos dos clubes de futebol e da própria imprensa hegemônica, que tem na jogatina os principais patrocinandores de seus campeonatos e programas pseudo-jornalísticos, o que é um escandaloso conflito de interesses.

As apostas on-lines chegaram ao país há mais ou menos vinte anos, mas foi a partir do governo Temer que foram liberadas sem qualquer tipo de legislação que defendesse os direitos dos apostadores. Essa postura se manteve no governo Bolsonaro, e somente em 2023, já no governo Lula, foi feita uma legislação tentando colocar um pouco de ordem na casa, depois que o vício em apostas on-line se transformou num problema de saúde pública no país.

As regulações das bets e casas de apostas ocorrem no mundo inteiro, portanto não é nenhuma jabuticaba, mas todos sabem que elas foram criadas para passar uma imagem de credibilidade ao jogo, enquanto maximiza os lucros das operadoras. Apesar de nenhum sistema estar imune a fraudes, e vários casos ao redor do mundo provam isso, a regulação foi uma tentativa do governo de organizar uma prática que faz parte do cotidiano das pessoas, e fazer essas empresas pagarem impostos.

Além das apostas esportivas, os cassinos on-lines, como o “jogo do tigrinho”, também se tornaram extremamente populares no Brasil, principalmente depois que influenciadores digitais foram contratados para divulgá-los nas redes sociais. Prometendo ganhos extraordinários, o jogo do tigrinho se resume a fazer uma combinação de três figuras iguais nas três fileiras que aparecem na tela.

O problema é que mesmo fazendo as combinações, o que é raro, as pessoas nunca conseguem retirar o dinheiro ganho, pois além de ser um esquema de manipulação em que apenas a banca ganha, quando os jogadores tentam retirar o valor que ganharam, as plataformas condicionam a liberação do dinheiro ao pagamento de novas quantias, via PIX, para que os jogadores subam “de nível”, e tenham acesso ao seu dinheiro, o que nunca acontece. Além disso, a entrada do crime organizado nas bets ilegais chamou a atenção da polícia, pois além de ser um caminho para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, seria mais um ramo de atuação dessas organizações .

Mexendo com os donos do jogo

Mas se os jogos fossem dominados somente pelo crime organizado ninguém reclamaria, o problema é que setores importantes da economia entraram de cabeça nessa seara após a regulação do governo federal, inclusive a imprensa hegemônica. Como boa parte da publicidade que financiava os veículos de comunicação migraram para as mídias sociais, essas empresas encontraram nas bets a salvação para os seus negócios, por isso estão dia e noite fazendo em campanha contra o governo.

Empresas como Globo e SBT, inclusive, se preparavam para lançar as suas próprias bets, e muitos jornalistas que saíram ou foram demitidos de veículos de imprensa montaram seus canais com patrocínios das bets. Com a cara mais deslavada do mundo, esses pseudo-jornalistas usaram seus canais para fazer uma intensa campanha em favor das bets, e da inutilidade da lei, se tranformando em verdadeiros cabos eleitorais da oposição.

Ou seja, na hora do aperto todos dão uma de Jarbas Passarinho, mandando às favas os escrúpulos de consciência para defender o seu cofrinho, enquanto a saúde da população desce pelo ralo. E essa previsão apocalíptica dos clubes de futebol e dos youtubers/jornalistas esportivos de que sem as bets o futebol vai acabar, não se sustenta. O que eles querem é continuar ganhando dinheiro fácil, não importa de onde venha, enquanto mantém a política de privilégios e incompetência que levou quase todos os clubes brasileiros a falência.

A grave crise econômica que afeta um país periférico como o Brasil, onde a população recebe baixos salários, a precarização do trabalho é regra, e o rentismo comanda a política econômica que sufoca diariamente a população com a benção da grande mídia e seus youtubers vassalos, resulta em frustração, e desespero. Portanto, é natural a busca por soluções que possam pelo menos ajudá-los a seguir em frente, e mesmo assim, de acordo com as pesquisas 75% da população são favoráveis a proibição das bets.

No entanto, jogos de azar não são a saída para nada, somente com a mudança do modelo0 econômico que há decadas impede o crescimento do país, a população brasileira terá esperança no futuro. O que está em jogo não é apenas um projeto de regulação, mas sim a ideia de um futuro na qual o indivíduo possa ser senhor do seu destino abraçado por uma coletividade que o impulsione, e não uma terra de ninguém, onde a acumulação é o destino final.

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