Um texto de Bento Vilela
A desistência de João Fonseca de participar do US.Open 2026, último Grand Slam do ano, devido a uma lesão no abdômen, demonstra de maneira clara para quem insiste em não enxergar o óbvio, que a maior promessa do tênis brasileiro dos últimos anos ainda é um jogador em formação, tanto física quanto tecnicamente.
Apesar da vontade da torcida brasileira em vê-lo jogar semanalmente, cada atleta responde de maneira distinta as exigências físicas impostas pelo circuito, e fazer um planejamento na qual se vislumbre não apenas um sucesso efêmero, mas uma carreira longeva, é principal objetivo de cada atleta.
Além do mais, se o que aconteceu com João fosse um caso isolado até poderíamos supor que houve algum problema na preparação, mas se existe uma rotina no tênis é a de atletas deixando o circuito por contusões. E isso não começou agora, Gustavo Kuerten, o maior tenista brasileiro de todos os tempos, praticamente encerrou a carreira os 26 anos por causa de problemas no quadril, e os principais tenistas da época mal chegavam aos trinta anos.
Contudo, apesar das contusões serem inerentes ao esporte, acredito que existe uma causa para uma sequência tão grande e repetitiva nas últimas temporadas, a uniformidade das superfícies de jogo. Para que os principais jogadores do circuito, leia-se Sinner e Alcaraz, pudessem chegar com mais facilidade as finais dos torneios praticamente se aboliu as diferenças de piso que caracterizavam o circuito.
Sendo assim, o saibro acabou ficando mais rápido, a grama mais lenta, e a intensidade do jogo se manteve igual, o que exige que o tenista esteja sempre no limite de sua condição física. Com isso, muitas estratégias, variações táticas e estilos de jogo característicos de cada superfície vão se perdendo, e a pancadaria sem fim deve continuar dominando os torneios.
E ninguém está imune a esse tipo de contusão, Carlos Alcaraz, por exemplo, ficou quase seis meses fora do circuito por causa de um problema no punho, e só conseguiu retornar agora no US.Open. Curiosamente, o seu grande antagonista, o atual número 1 do mundo, Jannik Sinner, desistiu do US.Open para poder se recuperar de uma lesão no joelho direito, e muitos afirmam que ele só deve voltar no ano que vêm.
Isso sem falar em jogadores que tentam voltar e não conseguem, como o inglês Jack Draper, que já chegou a ocupar a 4° posição do ranking da ATP, mas que desde meados de 2025 luta contra um edema ósseo no ombro esquerdo que o impede de jogar.
Se preparando para o final da temporada
Voltando a falar de João Fonseca, depois do torneio de Wimbledon, onde caiu na terceira rodada, ele voltou ao Rio de Janeiro para uma série de treinamentos, e a expectativa sobre o carioca para esses primeiros torneios em quadras duras era alta, especialmente depois das boas partidas que fez no início do ano nos torneios de Indian Wells e Miami, contra Sinner e Alcaraz.
No aberto do Canadá João Fonseca No aberto do Canadá João voltou a mostrar as mesmas qualidades e inconstâncias que o acompanharam no ano. Após vencer na estreia o grego Stefano Tsitsipas, ex-número 3° do ranking, por parciais de 7/6 e 7/5, numa exibição bastante sólida e constante.
Na rodada seguinte, João Fonseca encarou na rodada seguinte o norueguês Casper Rood, que ele já havia derrotado em Roland Garros, por 2 sets a 0 (parciais de 7-6 e 6-4), e com outra bela exibição venceu o 14° do mundo em parciais de 7/6 e 6/3.
Mas se contra Rood o carioca teve uma atuação perfeita, o mesmo não se pode dizer de sua derrota para ao americano Bem Shelton (5° do mundo) na rodada seguinte por 6/3 e 7/6. Apesar de um começo de jogo animador, e um segundo set na qual o jogo foi decidido no tie-break, a verdade é que João errou quando não podia, e amargou mais uma derrota para o americano que conseguiu manter uma consistência que o levou a vitória.
Em Cincinatti, apesar de um início animador, a contusão no abdômen acabou lhe tirando do torneio. Enquanto se recupera para sequência de torneios que terá até o final do ano, João Fonseca completou 20 anos, e precisará de um planejamento ainda maior para poder superar não apenas os adversários, mas sua própria condição física para encarar um circuito tão desgastante física e mentalmente.