Um texto de Bento Vilela
O ano de 1981 é considerado o ápice da trajetória rubro-negra pelos campos e mares nesse isolado planeta azul. É o ano em que um povo carregado de imaginação foi de encontro ao seu destino graças a uma geração costurada em suas entranhas, e um rei de nome Arthur.
Todas as pedras colocadas em seu caminho, seja com uma espada enterrada ou nas mãos dos adversários, foram superadas por uma equipe que permanece no imaginário rubro-negro, e dos amantes do futebol em geral, como uma de suas principais representações.
Mas quando a cortina desceu para geração de Zico e Cia, o Clube de Regatas do Flamengo passou décadas tentando reencontrar o caminho da chamada “glória eterna”, e apesar de ter conquistado títulos regionais e nacionais, teve ainda uma Mercosul no caminho, a Libertadores parecia um daqueles amores de verão, apaixonante e passageiro.
Além de ter colocado diversos posteres na parede, 1981 é a representação de um ideário secular, na qual a busca por excelência moldou a alma do clube e sua conexão com a torcida.
Para que essa conquista não se transformasse num ponto de inflexão de sua longa história, o Flamengo precisou sangrar sozinho até deixar de ser o clube inadimplente de outrora, colocar a “casa em ordem”, e aproveitar os mais de quarenta milhões de torcedores espalhados pelo mundo para se potencializar economicamente.
Se Ulisses demorou vinte anos para voltar aos braços de Penélope, o Clube de Regatas do Flamengo teve que esperar quase o dobro – trinta e oito para ser mais exato- para erguer novamente o troféu imortalizado por Zico. A trajetória não foi fácil, muitas vezes o time naufragou no início da jornada, mas após a chegada de Jesus e seus onze apóstolos, o Flamengo não apenas venceu a libertadores de 2019, como também o campeonato brasileiro, algo inédito até então.
Além dos títulos, a maneira de jogar do time de Jorge Jesus, dominante, envolvente, e extremamente ofensivo, reconectou o campo com a eterna expectativa da sua torcida, e porque não dizer do próprio futebol brasileiro.
Com o Flamengo de Jesus o futebol brasileiro se reencontrava com a essência que o consagrara, mas que havia sido deixado de lado pelo mantra da “vitória a qualquer custo”, que forjou o trabalho de uma geração de treinadores, e de um viralatismo sempre disposto a desprezar toda singularidade nacional.
Passado 2019, outros dois anos extremamente vitoriosos se seguiram,: 2022, com os títulos da Copa Libertadores da América e da Copa do Brasil; e 2025, que além de repetir as conquistas de 2019, quase levou o mundial, o que o colocaria na mesma prateleira de 1981.
Essas vitórias foram alcançadas com treinadores distintos, Dorival Jr. (2022), e Felipe Luís (2025), o que demonstra a força de um clube que nunca se coloca refém de um treinador, apenas de sua vocação.
Se o Flamengo ainda não conseguiu repetir sua maior conquista, novas oportunidades tendem a surgir com o inegável protagonismo do clube no cenário nacional. E a não ser que ocorra um tsunami em sua gestão, algo improvável, mas possível, como tudo na vida, esse protagonismo tende a se estender por muitos anos, enlouquecendo ainda mais a concorrência, e aumentando os anuários de vitórias rubro-negras.